Diante de toda a polêmica sobre o documentário What The Health, disponível no Netflix, decidi me manifestar. Minha opinião é baseada em pesquisas e em todo o conhecimento que acumulei durante os anos de estudos e prática da medicina.

O protagonista, o próprio diretor do filme, Kip Anderson, começa despretensiosamente seu recado numa busca com a sua van. Ele percorre a cidade tentando solucionar algumas questões que cercam uma dieta saudável.

 

Antecedentes

É bom lembrar, que o mesmo cineasta já causou polêmica com seu primeiro trabalho, Cowspiracy. Kip já havia mostrado sua opinião antes. E a sua opinião é capaz de aterrorizar e convencer todos que não tem opinião formada sobre o assunto em questão neste documentário: Consumo de carne.

A opinião dele é que o consumo de carne e outros alimentos derivados de animais levam a morte e causam uma infinidade de doenças.  Este filme é tão forte e convincente que é capaz de fazer as pessoas que não tem muita informação sobre o assunto acreditarem nas suas alegações.

 

A construção do terror

Para quem viu, ou pretende ver o documentário, saiba que, muito da sensação de pavor, perigo, terror, vem da construção do filme. Basta entender um pouco de estratégias de comunicação e imagem para identificar o objetivo.

Existe um esforço imenso (e bem executado) para construir as alegações e mostrar as informações de modo a gerar medo. Pouca luz, escuridão, músicas impactantes de filme de terror, criam um clima de pânico.

Ambos os filmes fazem sérias alegações sobre alimentos. Vou refletir um pouco acerca de alguns pontos importantes destas alegações.

As construções de imagens são fortes, usando crianças, mulheres grávidas, consumindo alimentos de origem animal como leite, enquanto luzes de alerta piscam e imagens nojentas de tecidos corporais com gordura, é realmente horrível. Impacta qualquer um.

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Em todas as construções o objetivo é o mesmo, mostrar que os alimentos de origem animal matam. E o diretor defende que só não sabemos disso pois as grandes empresas da indústria alimentícia usam de estratégias de comunicação subliminar que escondem os perigos desses alimentos.

 

A culpa é do sistema

A estratégia de Kip é a mesma que os grupos vegetarianos vêm utilizando desde a década de 70, culpar a mídia e o sistema. E essa estratégia funciona pois a grande maioria das pessoas já tem uma certa revolta com estas questões.

Crianças aparecem consumindo cachorros-quentes que se transformam em gordura, enquanto o médico especialista do filme afirma que comer um ovo por dia é igual a fumar cinco cigarros. Diversas vezes o filme faz construções de maneira a dizer que as indústrias ou produtos de tabaco são semelhantes às indústrias de carnes, ovos e leite.

Kip sugere que todos os problemas de saúde são causados pela indústria alimentícia, indústria farmacêutica e dos órgãos de saúde públicos que todos consideram autoridade nos Estados Unidos.

Até concordo com isso, mas o filme mostra apenas o lado do dinheiro que ronda o financiamento de empresas de produtos de origem animal, e não de todas. Existe sim um problema aí, mas isso não quer dizer que é legal se aproveitar desse problema pra espalhar alegações sem qualquer fundamento.

 

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Indo atrás das fontes

Que fique claro aqui, eu não concordo com o diretor deste filme. Eu não acho que todos os alimentos de origem animal vão causar morte ou aumentar as doenças. A verdade é que tudo depende da maneira como este alimento foi processado, como o animal foi criado e qual é a frequência com que este alimento é produzido.

O próprio site do filme fornece links pra quem quiser verificar a veracidade das alegações feitas.

A maioria das alegações foi feita com base em estudos epidemiológicos. E estudos epidemiológicos só são capazes de mostrar associação.

Estudos epidemiológicos não podem estabelecer relações causa e efeito e o objetivo deles é apenas gerar hipóteses que raramente são comprovadas.

Existem outras alegações que não são epidemioógicas, mas que são baseadas em ensaios clínicos, evidências não-conclusivas e reportagens/artigos de revistas, blogs e jornais.

Alegações feitas com base em ensaios clínicos precisam da certeza que estes ensaios atendem padrões e critérios pré-estabelecidos. E a grande maioria dos ensaios clínicos citados não está de acordo com os padrões.

Evidências não-conclusivas não podem ser consideradas base para alegação qualquer pois são estudos, como o próprio nome diz, que não apresentam conclusão.

Artigos de jornais, revistas e blogs não podem ser considerados fontes com 100% de comprovações científicas. Lógico que existem artigos muito sérios, mas como saber se os escolhidos não são tendenciosos?

A imensa maioria destes artigos é de médicos veganos ativistas famosos inflamados nas lutas pelo bem estar de animais.

 

O que fica

Para mim a intenção do documentário já está clara na necessidade da manipulação das imagens no sentido de construir o pavor nos espectadores. As fontes usadas para as alegações não possuem evidências sólidas ou comprovadas cientificamente.

A conclusão que fica é que, infelizmente, os meios de comunicação, e a facilidade que existe hoje em produzir conteúdo, quando mal utilizadas, podem ser perigosas. Não é correto oferecer informações tendenciosas tentando convencer pessoas de que os alimentos de origem animal trazem problemas para saúde apenas por motivos de cunho moral.

Pois está claro que é uma questão moral e não de valor nutritivo. Caso você ache que a melhor posição é evitar o consumo de carne ou de qualquer alimento de origem animal, ok! Cada cabeça uma sentença.

Seja por moral, por ecologia, pelo meio ambiente, pelos animais, tudo bem, mas a decisão é pessoal. Não precisa tentar assustar uma população inteira com alegações exageradas simplesmente para convencer o resto do mundo disso.

O que este filme mostra, no fim das contas, são alegações sobre alimentos de origem animal, que não possuem evidências sólidas nem comprovações científicas válidas.

 

Este foi mais um de meus desabafos! Minha sugestão é consuma informação sim, mas estude e pesquise as fontes, para assim ter uma perspectiva ampliada do assunto.

 

Victor Sorrentino